Enquanto eu ia ler todo esse meu texto um amigo disse
“o ano foi uma bosta, mas vc provavelmente já teve dias piores, superou e sabe que vai ter mais. isso é uma puta coisa boa”.
Daí eu coloquei na balancinha e 2014 ganha como o ano mais difícil de todos os meus 23.
Sendo assim, vamos considerar ele terminado e de forma positiva visto que to aqui pronta pra outra.
E é isso. Nem precisa ler o que vem depois.
(ps: sempre gostei mais de quatorze)
Eu poderia resumir esse ano em duas constatações óbvias mas sem escrever um monte de baboseira desnecessária com um monte de vírgulas mal colocadas não seria um texto meu. De forma que dizer apenas “2014 foi uma bosta” e “esse ano eu descobri que sou uma pessoa horrível” não seria suficiente. E pra falar a verdade, não seria justo também.
Eu diria que 2014 começou mais cedo que os outros anos que começam no dia primeiro de janeiro. Esse ano começou no dia 25 de dezembro com azedo na boca e uma briga que até agora eu não entendi por quê aconteceu. Já tive certeza que essa foi a causa de todos os males de relacionamento familiar esse ano. Já carreguei muito a culpa, até ver que uma idiotice não justifica outra e então a culpa virou alguma coisa.
E agora eu inclusive retiro os pedidos de desculpa já que eles foram sumariamente ignorados, não serviram pra nada e eu não me sinto nenhum pouco culpada pelo que houve. Agora, a poucos dias da treta completar um ano. Mas é assim, algumas coisas demoram mesmo.
Hoje me vejo pior por entender um laço interrompido e não ter energia ou vontade pra tentar resolver.
Então teve virada de ano e 2014 começou no calendário. Veio bacana. A promessa do fim da graduação, e de algumas outras realizações que me deixavam esperançosa mas eu nem lembro. Durou um mês.
Meu aniversário foi ótimo porque pude pintar a cara do meu irmão de guache: o trote mais sem graça da história. Sério, nunca entendi o conceito. Nunca entenderei.
Entre Março e Maio eu só lembro de um borrão. Acho que o acontecimento mais leve desse período foi um quase infarto do meu pai. Pois é. Foi um período difícil, assim como todo o resto, com vó no hospital, tio-avô morrendo. Pode parecer meio dramático mas eu acho que as emoções de vida ou morte foram além da conta pra mesma família.
Maio eu consegui parar por 4 dias. Inclusive, lembrem de tomar um Donato no Gelato Donato se forem para Serra Negra. Melhor sorvete gourmetizado porém em valor acessível.
E então veio a formatura. Muito trabalho, muito stress, aquela coisa que só fim de semestre pode proporcionar.
Fiz três tatuagens incríveis e acordei o monstro da tatuagem.
Entrei no mestrado. Arrumei um orientador super bacana. Ganhei um projeto divertido.
Me fodi.
A gente sabe que depois do ensino médio a tendência é tudo ficar mais difícil. Mas por algum motivo eu achei que o mestrado seria menos doloroso que os primeiros anos de graduação. Não foi. Tranquei quântica (ainda bem), me estressei, não consegui fazer nada.
No meio desse processo ficou tudo muito mais difícil. De setembro a novembro uma série de novas preocupações apareceram e aquela sensação de que a vida é muito frágil voltou a ser presente.
Passou tudo muito rápido.
E o volume de aborrecimento, preocupação, correria, cuidados, nervoso não podem ser resumidos.
Mas dizer que foi uma bosta, e só, é injusto. Injusto com finalmente pegar meu diploma (mesmo que figurativamente visto que nunca fui na seção de alunos buscar). Injusto com todo mundo que esteve comigo e me apoiou. Injusto com Diego e melhor presente surpresa. Injusto com Polenta que chegou em casa esse ano e é responsável pela maioria das risadas daqui.
Então o certo é dizer que 2014 foi um ano difícil pra caralho. Que ainda bem que acabou.
Eu sei que uma virada não muda nada. E que a perspectiva pra 2015 não é muito animadora (academicamente, financeiramente, profissionalmente…). Mas não é desesperadora e isso já é suficiente.
Se no fim de 2015 eu não fizer minha retrospectiva lembrando de tantos hospitais e médicos, eu já considero um ano de sucesso.

Por esses dias mesmo eu estava pensando em tirar o pó disso aqui. Ou fazer um outro. Faz parte da minha nova tentativa de ser produtiva, escrever alguma coisa a cada 15 dias. Qualquer coisa (menos as coisas que o professor pede em jornalismo científico)[1]. E hoje aconteceu algo TÃO bacana que eu resolvi que a primeira coisa a ser escrita é um agradecimento.

Mas senta, que antes tem historinha.

Domingo eu e o Diego estávamos por aí, fazendo um rolezinho na etna, sentando nuns sofás, avaliando o “renovador de lençol”, e dando risada das coisas porque é isso que a gente faz. Acontece que meu celular estava no bolso e caiu quando sentei no sofá cinza. Claro que eu não percebi. Saí da loja e estavamos indo embora quando percebi que, não, meu celular não estava na bolsa. Não, meu celular não estava no bolso. AI MEUDEUS MEU CELULAR SUMIU. Voltamos na loja. Se alguém tivese achado, talvez deixasse com alguém lá né. E acharam. A vendedora achou um celular preto de tela quebrada (meu sII) jogadinho ali no sofá.

Achei um celular ali naquele sofá cinza. Tinha mostrado um monte de sofás pra uma cliente agora, achei que fosse dela. Aí fui até ela. A senhora esqueceu um celular? Ah esqueci sim.

E foi assim. A cliente não era cliente porque não tinha comprado nada. Não sabíamos nada além de ser “morena de calça escura” o que basicamente descreve que nunca encontraríamos a mulher. (vai que ela pegou por engano né). Mas não foi o caso. Celular foi-se para sempre e não poderíamos fazer muito por ele, infelizmente. aliás, sofá cinza é duro, não é legal não.

Daí vem a parte legal.

Diego, esse moço que por acaso é meu namorado, fez  uma vaquinha, dia 30. Aparentemente ontem já tinha passado o valor. E hoje ele me deu o celular.

Eu quero, e pretendo, agradecer cada um dos que sei que contribuiu separadamente, de algum jeito bacana (provavelmente envolvendo comida porque, desculpem, é o que eu sei fazer). Mas absolutamente nada do que eu possa dizer ou fazer vai ser suficiente pra expressar o quanto eu agradeço por isso. Já chorei e fiquei sem reação e xinguei todo mundo e chorei mais um pouco. Precisei parar de chorar pra dar aula, mas ali, teve uma hora que eu falei algo sobre “medir espessura do seu celular, por exemplo” e meus olhos encheram de água de novo.

Primeiro eu chorei e me senti mal porque ontem um amigo veio me perguntar qual eu compraria. Na hora respondi que seria um moto X. Por dois motivos básicos: 1) já tinha combinado com o japs que compraria celular dele quando enjoasse. 2) não to com dinheiro pra comprar quase nada então porque não sonhar, não é mesmo? Mas aí tinha ali na minha frente uma caixa com um moto x branquinho lindinho e a vakinha era pra 500 dinehiros. E eu não precisava desse celular. Eu falei porque eu não sabia disso. Eu quis enfiar minha cabeça num buraquinho no chão. Então assim, se de alguma forma essa idéia besta de querer o moto x pq nossa o moto x melhor celular pqp que lindo foi, ah… qualquer coisa de ruim que eu acho que foi, me desculpem. Mesmo. Mas ele tá aqui. E eu só tenho a agradecer.

Não é o celular. Eu sei ele é lindo, maravilhoso e gostoso. É algo que independe dele.

Vocês participando, colaborando, fazendo essas coisas aí que tão me deixando com olho embaçado agora, é que tocou mesmo.

Eu sei que dinheiro não nasce em árvore e que não é sempre fácil a gente dar pros outros aquilo que a gente quer. E tirar os dinheirinhos (inclusive, 99 centavos ali foi uma assinatura que quase confundi) da conta pra fazer algo assim é algo. E mesmo quem eu sei que não ajudou tão “diretamente” merece muito que eu agradeça também (“eu não ajudei mas fiquei feliz” da fefa, por exemplo, tudo balela). É o gesto, poxa.

E esse quentinho aqui dentro que eu to sentindo agora não dá pra descrever. Mesmo. [3]

Eu não sei se mereço e acho que não mas ta aí tá feito. E eu espero conseguir, de alguma forma, fazer vocês sentirem esse negócio gostoso que eu to sentindo agora.  Porque não é só agora que vocês fizeram isso. Vocês sempre fizeram. Só agora que colocaram um monte num pacotão e me mandaram carregar de uma vez. Mas eu queria mesmo é agradecer por tudo. Tudo.  E quando eu digo vocês eu penso em cada um dos nomezinhos que eu sei e em alguns que ouso supor o mesmo.

Não sei se o que faço na vida tá certo, sabe? Eu não tenho a mínima capacidade real de julgar se sou merecedora de toda amizade que tenho, sinceramente acho que não. Mas se eu to acertando, é porque todo mundo que tá aqui, do meu lado, é responsável por isso. Certamente eu erraria muito mais se não fossem por vocês, que me fazem melhor a cada dia. Que puxam minha orelha, que me ouvem, que falam, que me fazem rir, que me dão motivos pra sair da cama todos os dias.

Todos vocês, meus amigos, são muito especiais. Muito obrigada. Por tudo.

E, acho que todos aqui concordam, posso agradecer mais um pouquinho ao Diego, né?
Não só pela iniciativa, mas por me aguentar tanto. Por estar sempre sempre do meu lado mesmo quando eu sou uma babaca idiota (e, acreditem, acho que já fui babaca idiota com ele muito mais vezes que com qualquer um de vocês [4]). Por me fazer feliz. E sortuda, porque né.

 

Mais uma vez, muito obrigada.

<3

Quando eu abrir minha lojinha de bolo vocês vão poder pedir qualquer bolo qualquer sabor qualquer hora de graça pro resto da vida.

[1] sim, dot, eu vou escrever o conto lá, fica tranquilo que vai sair.

[2] desculpem mas eu to nessas de sair sonhando porque é legal mesmo. meu notebook (presente meu pra mim quando eu formar) vai fazer até chai latte – seria café se eu tomasse café. Não importa se ele vir no fim do doutorado. Mas vai. Eu sei que a gente começa nas salinhas e vai aumentando, mas porque não ver essas casas gigantes pra alugar e já transformar em escola-doceria? (poderia ser pra não me frustrar eu sei, mas me deixa). To até sonhando que em breve a ciência vai descobrir uma maneira de aumentar bunda sem silicone e sem musculação.

[3] chuto que tentei descrever algo nesse parágrafo umas 30 vzes sem brincadeira. já dá pra entender que eu não to conseguindo me expressar né

[4] exceto meus pais. meus pais – um pouco do du tbm – já me aguentaram muito mais sendo uma babaca idiota porque, bem, são 23 anos de convivência diária né.

 


Lá pra março eu decidi rever todas as minhas prioridades e, claro, eu fiz tudo errado. Pra consertar, só agora, eu decidi voltar a ler mais que 140 caracteres num livro de verdade que não fosse pra pesquisa ou pra estudo. Escolhi voltar com O Encontro Marcado. Porque é importante e, você sabe, Sabino é meu preferido.

Última vez que te vi, você doente sem voz, ficamos numa  rasgação de seda boba e eu não falei nem metade do que queria. Daí foi quando eu tava lá chorando na primeira parte do livro (eu sou uma chorona mesmo né) que eu entendi o que eu queria te dizer com tudo aquilo.

Acho que os preferidos o são pelo que inspiram através de uma obra ou outra (ou tudo). Sabino faz com que eu me sinta poderosa com uma caneta e um pedaço de papel. Sagan me lembra o porquê eu faço o que eu faço.  O Flaming Pie me  coloca nos eixos. Amor me leva leve pluma muito leve leve.

Estive lembrando do tanto que pensei pensei e chorei e pensei depois do primeiro espetáculo que vi. Eu quis que todo mundo pudesse ver aquilo que,  talvez, tenha sido a coisa mais  bonita que já  vi. Quis dar um abraço em cada pedaço de tudo aquilo, mas acho que só  dei um abraço em você (e me bastou).

Depois que você me contou que  foi a culpada por todas as lágrimas que quiseram brotar naquele domingo, e por tudo que fiquei pensando depois, eu só quis agradecer por ter a sorte de te ter tão perto.

Não é como se eu não admirasse meus outros amigos. Não é como se  eu só te tivesse perto pela sua arte. Mas é pela sorte de ter o pacote completo, de ser fã além de amiga.

Eu sei que você é de carne e osso e paranóia. Que você chora que nem eu, surta que nem eu, e não  aguenta mais frango no almoço. Eu sei que você é mais que o Sabino que eu endeuso por meia dúzia de crônicas, porque você é real e tá pertinho pro abraço e pro puxão de orelha.

Mas eu queria dizer que, o que você faz, é grande. E é lindo.  Não  é fácil ser a segunda melhor intérprete possível da minha música preferida. E não acho que seja fácil transformar panela de pressão em poesia. E por todas as palavras que saíram da sua boca ou não,  naquele domingo ou não, eu só tenho a agradecer.

Última vez que conversamos eu fiquei com medo do processo te comer, e quis dizer pra não deixar. Mas eu sei que não vai acontecer.  Você é maior que isso,  não ouse esquecer.


O dia avança com suas regras e dificuldades. A correria já é padrão, muita coisa pouco tempo. Mas é importante que sobre tempo pra aquilo que importa. E o relatório na mesa do chefe até as 17h pode até ser o responsável pelas contas serem pagas no final do mês mas não é só o que importa.
Em quinze  segundos ela pega o celular, desenha o código de bloqueio, vai até o aplicativo, arrasta o dedo pelo teclado e manda. São só dois deseinhos, dois sinaiszinhos que sequer ficam bonitos juntos. Mas é o suficiente pra dar o recado.

Não é que o trabalho seja desimporte. Que a aula esteja chata e entediante. Que o estudo esteja ruim.

Quando ela pega o celular entre uma sala e outra é só pra dizer que, mesmo com todas as outras importâncias, o o destinatário do beijinho descompromissado ao longo do dia importa mais.

o título é uma provocação bobinha pra quem leu primeiro isso aqui, me deixa.

[tá uma bosta porque eu voltei a escrever agora, depois de meses totalmente parada. então dá um desconto, vai. esse negócio de escrever não é como andar de bicicleta e: eu. não. sei. mais.]
[também perdoa pq deve ter um milhão e meio de erros mas eu escrevi no celular então…]


Faz tempo que não escrevo. Mas assim, muito muito muito tempo mesmo. Também faz tempo que não dou atenção pras músicas de palminhas. Talvez eu tenha enjoado, talvez eu tenha ouvido Man Man demais. Mas eu sei que to devendo isso faz tempo então:

japa faz-capas express

japa faz-capas express

 

 

Nessa quarta e maravilhosa edição da melhor mixtape de músicas com palminhas da galáxia temos apenas VOCAIS FEMININOS. Não basta ter palminhas, tem que ter mulher no vocal.

É a primeira mixtape sem Beatles. E foi, claramente, feita às pressas. Mas com carinho, eu juro.

Ouça pelo grooveshark ou onde preferir.

 

enventualmente eu posto umas playlists no Dona Mastô com mais um monte de gente linda :)


2010 foi um ano difícil. Eu tinha 19 anos e um monte de conflito. Mas aí passou e logo no comecinho de 2011 eu fiz vinte anos e foi legal. Eu lembro das flores, lembro das brigas pré-comemoração, lembro do presente embrulhado no papel de subway, lembro que quase tudo que tinha pra ser ruim, foi pior, mas o que podia ser bom foi ótimo. Acho que até soprei as velinhas.

2011 foi bom. Foi bom ter vinte anos. Começou bem, terminou bem e foi, em média, bom. Começou 2012 e como todo dia 12 de fevereiro, eu fiz aniversário. Fiz festinha de criança, encomendei docinho, bolinho de queijo, bolo prestígio, refrigerante. Tinha Stella Artois também, mas isso pros adultos (gosto de pensar que tomei as minhas escondidas pra dar emoção). Quase todo mundo veio (menos a nana, que não vem se não tem paçoca). Passei a noite cercada de gente muito querida e muito especial. E soprei velinhas. Duas velinhas. um DOIS e um UM. Eu lembro de toda a noite, lembro de tudo, menos de ter feito 21 anos.

Eu sei que não é no “rito de passagem” que a idade muda. Eu sei que nada muda o fato de eu ter nascido em 1991. E eu sei fazer contas. Se se esquece a idade é só fazer uma subtração e pronto.

Mas eu não esqueci. Eu só sabia que eu tinha vinte anos, ué. Preencher formulário com idade? 20 anos. Preencher formulário com data de nascimento? 12/02/1991. num formulário que pede nome e idade de nascimento? “nossa que babaquice, pra que as duas coisas?” 20 anos, 12/02/1991. Não é babaquice é um teste, e eu falhei. Não sei quando foi que eu decidi que tinha 20 anos ainda, por quanto tempo isso aconteceu. Mas foi bastante tempo, isso eu sei.

Dia desses eu soltei um “porque vou fazer vinte e um…” e antes de terminar a frase fui interrompida, “não é 22, má?”. CLARO QUE NÃO. Onde já se viu, eu errando minha idade.Por favor, é claro que eu sei quantos anos eu tenho. Onde já se viu? Que espécie de namorado é você que esquece a idade da namorada?

A ilusão ainda durou mais uns dias até que mamãe me mostrou que a realidade era um pouco mais dura. Um ano a mais de dureza. E mãe sabe dessas coisas né. Pelo menos a minha sabe. Tem como discutir com a mulher que me carregou por nove meses, me aguenta há mais de vinte anos e me pediu pra parar de ser louca e fazer as contas?

Não sei se quero ter 22. Obviamente, não to preparada pra isso.

*originalmente esse post se chamava “vinte anos e vinte e tantos meses” o que demonstra minha profunda falta de criatividade. porém people are getting old é uma música bastante legal e eu acho que vocês deveriam ouvir então eu to justificando falta de criatividade com indicação musical.


Como não era grande, a biblioteca da escola era uma bagunça. Não seria se os títulos fossem poucos, mas não eram. Disseram pra menina que todo aquele mundaréu de títulos ocupavam dois andares da biblioteca pessoal do fazendeiro mais rico da cidade. “antes de morrer ele mandou tudo pra cá, meio que às pressas, e não tinha outro lugar pra pôr… colocaram tudo nessa salinha aí”. Não que a menina ligasse, ela gostava assim. Às vezes diziam “quem sabe o próximo prefeito usa aquele terreno do lado da sorveteria atrás do posto de gasolina perto do semáforo… sabe? quem sabe levem os livros pra lá” e ela torcia o nariz. A biblioteca da escola era bonita assim, com os livros todos jogadinhos mas ajeitados e com a bibliotecaria séria que envelheceu rápido demais. Ela gostava do cheirinho dos livros, dos corredores estreitos e da mistureba que era. E da história de amor.

A bibliotecária, uma senhora de 27 anos, magrela e desajeitada, não sabia ler. Mas sabia onde estavam todos os livros. Talvez ela tenha decorado, eu não sei. Só sei que sabia onde estavam todos e nunca deixou aquela bagunça ser organizada. Funcionava muito bem, pra que mudar?

Na estante de frente para a porta estavam arrumados os livros sobre direito, biologia, história e as fábulas. A segunda estante era um pouco mais eclética: física, filosofia, culinária, gibis, monteiro lobato, literatura estrangeira, crônicas, os livros de vestibular, religião, geografia e anatomia. A terceira, preferida da menina, era a menos variada e mais colorida. Estavam lá os livros para criança, para crianças mais jovens, para jovens, e todos aqueles livros que, por falta de categoria melhor são infantis, porém todo adulto precisaria ler. A quarta estante seguia o padrão das duas primeiras: livros técnicos, literatura e algumas fitas k7 também.

Foi entre a segunda e a terceira estante que a menina viu, pela primeira vez, um olhar apaixonado cruzar com o dela. E fazer cara feia.

O livrinho fino de páginas coloridas tinha o olhar derretido, profundamente apaixonado, quase sofrido. Mas foi a menina passar pela frente que o olhar mudou. Incomodado, envergonhado, quase bravo.

– Me desculpa, mas o que foi que eu fiz?

O livrinho se encolheu na estante, estava um pouco mais vermelho que de costume, e não respondeu. A menina ficou furiosa, pegou um livrinho qualquer e saiu.

E no dia seguinte, correndo pra prateleira, encontrou o olhar confuso do livrinho fino. Notou que era o mais fininho da estante, mas teve medo de incomodar. Trocou seu livro e mudou de corredor, pra espiar.

Ali, da parte de trás da segunda estante, ela via direitinho o ar sorridente com que o livrinho olhava pra alguma coisa do outro lado. Livrinho olhava pra estante onde ela se escondia, mas não percebia que estava sendo espiado, olhava outra coisa…

A menina ficou intrigada porque aquele livrinho olhava tão intensamente pra prateleira quee decidiu investigar. No dia seguinte passou no corredor dos infantis, pegou outro livro e espiou a estante da frente, “só coisa chata”. Tirou um livro grande, aleatoriamente, e foi se esconder. O olhar meloso do livrinho era o mesmo, tinha errado. Devolveu o livro pra bibliotecária e foi ler o seu. Tentaria outro depois. E tentou. Outro. E outro. E outro. E outro…

Um dia a menina se cansou e pegou o livrinho. Ele não queria responder, mas ela descobriria mesmo assim. Levou pra casa e leu. Era um daqueles livrinhos gostosos, fáceis de ler, poucas páginas, letras grandes, umas ilustrações bonitas… Acho que era um daqueles livros infantis que todo adulto precisaria ler. Mas posso estar errada.

Depois de meses espiando livrinho por trás da prateleira, depois de lê-lo tantas vezes tentando descobrir o motivo daquele amor, a menina estava decepcionada. Foi devolver o livro a bibliotecária com o olhinho triste, cabeça baixa, olhos fixos nas mãos. Ao colocar o livro na mesa percebeu que livrinho estava corado. Ao seu lado tinha um livrão cinza escuro que acabara de ser devolvido pelo moço alto que estava já na porta, de saída.

Aí a menina descobriu.

O livrinho colorido e fácil de ler estava olhando pra ele, o grandão. E nunca antes o livrinho pareceu tão feliz. livrão, um livro maior que a bíblia, escrito em russo arcaico e com um cadeadinho pra abrir. A menina não entendia aquele encanto todo por uma capa cinza com a cara sisuda. Mas enquanto a bibliotecária passeava pelas páginas, pra checar se estava tudo bem, as folhas delicadas e bonitas apareceram. Tinha bonitas figuras e letras. Ao ter a capa fechada o livro cinza deixou escapar um olhar bonito e melancólico de quem vê seu amado de perto e já vai se despedir. A menina percebeu.

Pediu pra ficar mais um dia com o livrinho e foi passear pelas estantes. Logo depois de ter sido posto em seu lugar, o livrão foi pego. Furtivamente colocado na bolsa.

Menina saiu com a bolsa pesada cheia de amor e nunca mais voltou à biblioteca da escola. Tudo bem, ela gostava assim.

[tá sem revisão e continuará assim. lide com isso]