Principia Theatru

19fev09

Eu sentia o suor escorrendo lentamente pelo meu peito, mas não ligava. Estava concentrado para me mostrar (ou somente mostrar o meu personagem) a cerca de duas centenas de alunos desconhecidos ou grandes amigos, professores que mal me conheciam e aqueles que já me suportaram em aula, curiosos de plantão e, para piorar o nervosismo, uma pessoa especial que eu chamara para assistir a peça. Seria como qualquer um dos ensaios se não fosse pelo nervosismo geral e as risadas ao fundo. Estava tudo funcionando como planejado na abertura. Falavam do porquê de o nome da peça ser “Principia Theatru”, citando o famoso livro de Isaac Newton “Principia Mathematica”. O Foca (idealizador do nosso grupo de teatro, que estava ali no meio da primeira apresentação da nossa primeira peça) entrou pela coxia. A barriga começou a reclamar do meu cérebro ansioso, sabia que daqui a segundos entraria junto comigo no palco. Já estava fantasiado com a roupa de padre que custara uma longa e divertida viagem a Ribeirão Preto ao grupo. Fui anunciado e entrei. Comecei a reproduzir os movimentos que treinara no ensaio, mas não saíam como eu queria, minha mão tremia como um motor dum ônibus. Era uma esquete curta e logo saí, a parte mais díficil não era aquela. E a peça seguiu, com minhas participações estranhamente não prejudicadas pelo nervosismo. E o mesmo acontecia com todos os outros. Mas estava chegando a hora da maior esquete, que era uma das melhores na opinião de todos, e o medo de errar ou esquecer falas era geral, nela em especial. Eu era o primeiro a aparecer. Tinha de segurar um espelhinho e me arrumar para um encontro. Estava na minha mão esquerda aquele pedacinho de metal inofensivo. As luzes se acenderam, e comecei a levantá-lo. Mas seu peso aumentara, ele não subia sem que minha mão tremesse descontrolada. Desisti. Resolvi tentar de novo e desisti de novo. Logo chegava o outro personagem da esquete, larguei o espelho da mesa e continuei. As falas iam saindo sem eu nem notar. Acordei somente mais tarde, quando corri para abraçar a pessoa especialmente convidada e ouvi uma dúzia de “Parabéns pela peça!”. Sorri… e senti, por mais que fôssemos amadores, o doce gosto de espalhar alguma arte.

(Gustavo)

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4 Responses to “Principia Theatru”

  1. Eu sofro do mesmo mal quando tenho que apresentar alguma coisa. Parece que outra pessoa faz isso pra mim, porque eu não lembro nada do que eu fiz depois.

    Ah… uma reclamaçãozinha: seria interessante se tivesse o nome do autor nos textos, já que não é só a marina que escreve aqui agora. :)

  2. 2 marina

    Saudade que me deu da época que eu fazia teatro. mas sabe, sempre achei mais fácil ser outra. dá medo, mas depois eu pisava no palco virava divertido, e eu gostava de saber que estava todo mundo olhando, mas não pra Marina, e sim pra quem quer que eu estivesse fingindo ser.
    Medo MESMO é quando EU tenho que apresentar coisas, aí é assustador.
    (:

  3. Nossa eu amo teatro, acho muito lindo. Mas infelizmente nunca tive a oportunidade de entrar num grupo.

  4. Hey, eu estava lá também, entrei logo depois dele. Devo dizer que foi bastante assustador nos primeiros instantes, mas depois que já foi, já foi né, fazer o que. No fim deu tudo certo, gostei do jeito que você escreveu aquele teatro mais improvisado que já vi/fiz.


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