Hesed

24fev09

(O post não foi escrito para ofender ou magoar ninguém. Leia com atenção e tente aceitá-lo sem preconceitos como somente meu ponto de vista, como eu faria com qualquer visão de mundo que ouvisse. E desculpe por não haver poesia hoje, como prometido.)

Era por volta de duas horas da tarde e eu observava o horizonte correndo na direção contrária à do ônibus em que estávamos. Olhava para aquelas pessoas completamente desconhecidas e diferentes de mim e das que estou acostumado. Fitava a camiseta de uma menina sentada a alguns metros de mim, estava estampado com grandes letras “Hesed” e abaixo, com letras menores “Poder misericordioso de Deus”. Tratava-se de uma pessoa aberta e fortemente religiosa, como todas as outras deviam ser naquele ônibus. Pensei por um minuto: “Que diabos eu estou fazendo aqui? O que levaria uma pessoa como eu que não se lembra nem como se reza uma Ave Maria a seguir na mesma direção daqueles católicos que felizes cantavam durante a viagem?”. Mas logo veio uma resposta por mim muito usada em outras situações: “Vim conhecer!”.
Quando pequeno fui educado como católico, mas somente as coisas básicas me foram passadas pela minha avó e meu pai, que são fortemente católicos, e até por minha mãe, que já viajou por estradas de diferentes religiões mas na época seguia o catolicismo. Não tinha o costume de ir à missas, não sabia todas as rezas (somente Ave Maria e Pai Nosso, na realidade, eu lembro de ter aprendido), não entendia sequer o que era uma religião e que existiam diversas no mundo (dentre elas o Ateísmo, que considero também religião por ser da mesma forma baseado em dogmas). Estudei num colégio declaradamente católico, onde assistíamos missas e cantávamos canções, e cheguei até a fazer primeira comunhão. E parou aí. Depois nunca mais cheguei perto da porta de uma igreja e o assunto de religião era um tabu para mim. Não sabia se meus pensamentos se encaxavam em alguma delas.
Por ter abandonado missas e contato com religião acabei por criar pensamento próprio, exclusivo a mim. Adoro a natureza que apresenta suas belíssimas leis que funcionam hamoniosamente. Adoro a vida. Aprendi a ver o mundo como ele me vinha e a acreditar no que me era mostrado, fazendo tudo do meu modo.
Até entrar na Física nunca havia participado de uma discussão ou ouvido comentários fortes a favor ou contra alguma religião. E vi que nesse curso em especial todos tinham uma clara visão do que acreditavam. E alguns me falavam: “Religião é coisa de gente ignorante que não conhece ciência e acredita em algo vazio baseado em dogmas, que não têm força o suficiente para agüentar tamanhas teorias neles explicadas.”. E eu sempre respondia: “Se é nisso que a pessoa acredita, deixe-a pensar como ela deseja.”, que soa como uma resposta bem vazia de alguém cheio de dúvidas.
Até que conheci a Flávia, uma pessoa que se tornou muito importante pra mim em pouquíssimo tempo. E ela me chamou para ir num retiro de Carnaval. Mas que raios é isso? Eu não sabia e talvez muitos não saibam. É algo como uma reunião de pessoas, jovens em sua maioria, que tem como propósito desenvolver todos os aspectos da religião. E eu resolvi ir para ver minha reação à tudo que ali se mostraria a mim. E me proponho a descrever aqui os principais conflitos e reflexões que passei nesses dias.
Quando cheguei na chácara, logo percebi um espírito de ajuda quando fui chamado a ajudar na confecção dos crachás aos muitos participantes (em um número muito maior do que eu esperava). Fui bem recebido pelas pessoas com quem eu conversava, mas não me revelava diferente deles. Era como se acreditassem que do nada eu tiraria um terço do bolso e começaria a rezá-lo ali. Depois começaram as palestras. Alegres danças, discórdia de minha parte quanto a alguns aspectos que o catolicismo acredita, histórias sobre santos que todos ali já haviam ouvido dezenas de vezes e que eu ouvia pela primeira vez, sem muito entender, isso foi o primeiro dia.
À noite, foi uma mobilização de todos para organizar o salão onde haviam sido as palestras para transformá-lo no “quarto dos meninos”. Junte cerca de cem colchões e espalhe pelo chão de uma grande sala, encha-a de adolescentes para ali dormir e terá uma idéia do que era aquilo. Gritarias, toques de celular, guerras de colchões, sons engraçados, brincadeiras de todos os tipos aconteciam enquanto nos proparávamos para dormir, até que um dos organizadores do evento começou a berrar e o silêncio se fez (por alguns minutos…). O dia fora cansativo e me desanimei com a notícia de que iríamos acordar cedo no dia seguinte, que um dos meus colegas recém-conhecidos me deu.
Acordei cansado, não tomei banho para salvar alguns minutinhos a mais de sono (mas já havia tomado na noite passada). Era interessante a questão do banho ali. O banheiro que tinha quatro cabinezinhas protegidas apenas por uma daquelas cortinas que voam com um assopro mais forte e a fila para nelas chegar ela grande. Os chuveiros não aqueciam regularmente a água, de modo que era difícil saber se um banho seria quente ou frio. Tudo apertado ali, não havia muito lugar para suas roupas e toalha (o que me fez sem querer “tomar banho com carteira e MP4”, como definiram quando contei que estavam molhados após meu primeiro banho). E havia insetos. Vi um bom número de aranhas, besouros e centopéias por ali. Um dos meninos até disse que havia visto um escorpião.
As palestras continuavam e eu cada vez mais via que meus pensamentos diferiam muito das crenças católicas. E comecei a me sentir mal por aquilo; a Flávia devia estar esperando que eu saísse de lá completamente convertido e resolvi conversar com ela. Disse a ela tudo o que eu achava da vida e de como eu raciocinava com aqueles pensamentos. Quando terminei de falar, fiquei a encarando e perguntei o que ela havia achado. Disse que respeitava minha visão, mas disse “Queria que você pensasse como eu.”, o que me deixou meio preocupado com o que ela agora pensava de mim.
Nesse dia, um aspecto que me chamou muito a atenção era o quanto os ensinamentos da Igreja mobilizavam aquelas pessoas. Seguir todos os rituais, ajoelhar, rezar, naquele salão quente e com o sono presente na maioria dos rostos. E a felicidade de todos a cantar e conversar depois das palestras ou missas, ou durante essas.
Dormimos fora da casa nesse dia. Insetos para todo lado, conversas que nos fizeram somente pegar no sono às duas da manhã, perigo de ser encoxado/molestado pela proximidade dos colchões, o barulho de cinco caras perseguindo uma ratazana que corria rapidamente nas proximidades do salão. E a noite foi ótima, nem me lembro da última vez que ri tanto antes de dormir como nesse dia.
Então, acordei para último dia (o retiro durou quatro dias, mas eu saí um dia antes para viajar à São Paulo). Fui tomar banho e o chuveiro escolheu o meu como gelado siberiano. Dancei as músicas matinais como de costume e chegou a primeira palestra, que tratava sobre sexualidade. Foi um choque, comecei a perceber uma característica que me entristece muito, a intolerância. Vou reproduzir uma frase como foi dita: “Deus criou o homem, Deus criou a mulher. O homem e a mulher são seres abençoados por nosso Senhor. Tudo que disso se desvie a ele não pertence.” E fui percebendo pequenos sinais preconceituosos em diversos aspectos. Entristeci. Veio a palestra seguinte que falaria de amizade e namoro. E outras frases fizeram a tristeza aumentar: “Amizade ou namoro verdadeiros só existem quando te levam para Deus.” e “Peçam para que seu namorado ame primeiramente a Deus e depois a você.”. Então alguém que tivesse uma religião diferente não poderia ser amigo ou namorado de um católico? Então eu não tinha nenhum relacionamento nem com a pessoa que me levara até ali? Saí um pouco para respirar e refletir, conversei com a Flávia e ela disse que pelo menos a visão dela não era essa. E me levou para falar com um dos palestrantes. Ele dizia que os católicos deveriam aceitar as outras religiões, sem tentativas forçadas de conversão. E isso bastou. Percebi que a intolerância estava ali presente, mas não em todos.
Esses três longos e cansativos dias, nos quais eu participei de todos os rituais que se apresentavam (muitos até desconhecidos por mim) não pode ser dito que não mudaram minha vida só por não terem alterado as coisas nas quais eu acredito. Mudaram sim, e muito. Finalmente tenho certeza de quem eu sou religiosamente: um agnóstico. E digo isso com orgulho a todos os católicos tolerantes que me olham e não julgam meu modo de pensar e com coragem a todos os outros cegos que não aceitam pensamentos diferentes.
Mas acho que a mudança mais importante foi minha visão sobre a religião em si. Algo que mobiliza aquele enorme número de pessoas a cansar a cabeça, o joelho e as mãos e a oferecer seu carnaval inteiro deve fazer sentido, mas não para todos. Pessoas pensam diferente e, logo, não apresentam o mesmo credo. Existem pessoas que precisam da religião para viver, outras não.
E, desde esse retiro, apoio e até admiro os religiosos que, tolerantes, contribuem com ensinamentos sempre dirigidos a melhorar as pessoas que vivem em nosso mundo, seja do jeito que for. E o importante não é acreditar ou não em um santo ou deus, e sim ser uma boa pessoa.

(Gustavo)

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One Response to “Hesed”

  1. 1 João Guilherme

    Hehe, eai gustavo, antes de mais nada bem vindo ao blog da mah^^
    Acho q ela vai me matar depois por deixar um comentario num post seu sem nunca ter deixado num dela, mas é a vida, xD

    Devo dizer que …Mais que Raios???? até q vc escreve bem^^
    Muito interessante esse texto, devo dizer que compartilho muitas das suas opniões sobre religião, tambem não sigo nenhum culto em especial, mas tenho contato com pessoas de varias religiões distintas que sempre me surpreendem com seus modos e pontos de vista de como levar a vida, devo dizer que nosso amigo, ex-físico agora cientista molecular, Paulo é bastante catolico, e o lucas la da metereologia é protestante, e ambos levam bem a vida com seus cultos e seguindo carreiras cientificas!!! Do meu ponto de vista estas pessoas empobreceriam se deixassem a religião de lado, por esse motivo ja deixei de criticar religião a muito tempo, mas é claro sempre é muito chato quando vc encontra aquelas pessoas dogmaticas de mente fechada que querem te converter custe o que custar =/

    Abraço Guh! se cuida meu filho!


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