Não deixe pra amanhã

15jun09

A vó era casada com o vô. Do casamento vieram três filhos, duas loironas de olhos claros  e (meu) pai. Depois de um tempo o casamento começou a dar problemas, divórcio veio. Acontece que no meio disso aí a vó acabou com uma certa raiva do vô, e, principalmente, da nova mulher do vô. As loironas de olhos claros foram ficando distantes do pai (seja por influencia da vó, ou não).  E o vô, também, não tentou forçar nenhum relacionamento saudável com os filhos. Os anos passaram e as loironas, que tem temperamentos bem parecidos mas não combinam mais, também se afastaram. Não só o afastamento natural que a vida de gente-grande-com-família traz, talvez tenha mágoa, raiva, inveja ou ciúmes no meio, e o resultado disso são brigas de jovens adolescentes sendo protagonizadas por duas mulheres adultas. E a vó acaba no meio das brigas, às vezes. Outras vezes as brigas são com ela.
E assim é parentaiada por parte do pai.

Aí um dia minha vó ficou doente(um tumor que resolveu passear por aí). Ela vai bem. Não que ela esteja andando por aí saltitante de felicidade, sorrindo e cantando, mas ela não reclama de dor, não fica choramingando o tempo todo e, principalmente, tá perdendo aquela cara de doente (aquela palidez e envelhecimento instantâneo que doença e hospital proporciona). Acho isso bom pra todo mundo. Ela não passa aquela imagem de “to morrendo” pra quem vai visitar, quem vai visitar fala com ela sem aquele ar “coitada, ela tá morrendo”, e com isso ela ganha animo pra continuar lutando. Lógico que ela não é de ferro. Ela tem medo, e bastante. Toda a família tá com medo. 

Acho que por causa do medo algumas coisas estão mais simples, aparentemente. Não sei exatamente a história toda dos avós, e o porquê e da mágoa da raiva, mas sempre achei que desse pra se perdoar. Não precisa virar amigo-pra-sempre, nem forçar uma relação qualquer, mas achei que fazia tanto tempo, que, pelo menos, parar de fugir era uma boa (Lembro dos aniversários meus e de como era raro contar com a presença do avô E da avó). Mas com a avó adoentada algumas picuinhas parecem ter sido esquecidas (ou perdoadas), a vó ligou pro vô, o vô visitou a vó, as conversas entre eles parecem simpáticas e agradáveis, a vó não fica horas reclamando dele (pelo menos, todas as vezes que a vi não ouvi reclamações, e o nome dele só vinha pra conversa quando ela comentava que ligou pra ele ou algo do tipo). Ainda falta muito pros dois. Ela reclama menos dele, mas eu sei que reclama. Assim é com ele também. Mas agora eles decidiram caminhar pra um convívio agradável. Um passo por vez, mas estão caminhando pra isso. 

Nessa de ir no hospital dá pra perceber que acontece isso aos montes. É o medo de morrer. O medo de deixar uma pessoa que se ama partir (Não que a vó vai morrer, porque eu não acredito que isso vá acontecer agora) faz com que os perdões sejam mais fáceis. Ainda acho difícil entender porque se esperam esses momentos difíceis pra fazer o que se podia ter feito antes. Mas eu faço isso também.

Espero que as loironas que ainda brigam por nada aprendam com isso, sem precisar dar tchau pra ninguém.
Espero eu aprender com isso. Essa coisa de “não deixe pra amanhã o que se pode fazer hoje” vale também pro perdão, pra atenção que eu preciso dar pra quem merece, pr’aquele telefonema “só pra dar um oi” e pros pedidos de desculpas que eu devo por aí. E eu preciso aprender isso o quanto antes.

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3 Responses to “Não deixe pra amanhã”

  1. 1 Sisa

    É, Marina. As pessoas são mesmo assim. Há sempre desentendimentos e mágoas, afastamentos e dor. Aí vem uma dor maior ainda e mostra pras pessoas que talvez aquilo nem seja bobagem, mas com certeza é tudo menor do que a única certeza da vida: que em algum momento nada mais poderá ser feito.

    Então eu desejo melhoras pra sua vó (a minha saiu do CTI hoje) e que toda sua família possa viver um momento de paz. Porque no fim das contas é isso que importa.

    Beijo.

  2. genial… é uma pena que o ser humano ainda não aprendeu a deixar o orgulho de lado. Quando isso acontecer a nossa espécie recebe o terceiro ‘sapiens’ no nome. Mas você não tem é muito que se preocupar com sua vó… pena dá é das loironas que vão sentir o gosto do perdão ou do arrependimento da pior maneira.

    Enquanto isso é deixar o rio correr… as pedras que tão nele rolam às vezes, faz parte do curso.
    =)

  3. Não me alongo muito aqui no assunto, pois… Pra mim, é complicado demais tocar nessas coisas. Mas desejo melhoras pra sua avó, espero que tudo fique bem e que todos consigam fazer as pazes com a vida e seguir em frente, caminhando pra harmonia.


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