lost

05jul11

Eu não grito. Eu não saio correndo. Eu não discuto. Não mudo o tom de voz.
Sou daquele tipo irritante que senta e chora e começa a falar mais baixo. Daquele tipo covarde que solta uma frase mais agressiva e deixa, logo em seguida, todas as lágrimas que estavam presas sairem rolando pelo rosto. Sou daquele tipo que não ousa, pede desculpas e vai chorar no canto.

E o canto ficou pequeno e não cabia mais tanto chorar. Eu que nunca levanto e saio correndo, por mais que a vontade exista, levantei e saí. Deixei “cansei de chorar aqui. fui chorar lá fora. desculpa. já volto”. Levantei. Saí.

Sair sem rumo assim com muito choro no peito é daquelas coisas que eu sempre achei que ia ajudar mas nunca fiz. Mais prático correr pro quarto e abafar o choro no travesseiro ou sentar embaixo do chuveiro com a água mais quente possível até os olhos gastarem toda a água.

Afastei o discurso que eu queria ter usado mas não tive coragem. Afastei todos os diálogos que só  existiriam na minha cabeça. Tentei afastar a lembrança das últimas palavras que ouvi. Do último olhar atravessado que diz mais do que todo o sermão que eu ouvi antes. Esqueci a culpa que eu tava sentindo. Ignorei todos os olhares de dó, surpresa, curiosisade que cruzava meu caminho e fui.

Eu, a subida, o choro e a vontade de sumir.

Porque, além de tudo, eu fujo. Eu saio correndo. Eu faço outros planos. Eu fujo, me escondo e sumo. E, dessa vez, dessa vez eu estava sumindo de verdade.

Aproveitei meu senso de direção falho e me perdi.
Meu bairro, meu espaço, e eu perdida. É engraçado.
Eu passei a vida toda fazendo planos. Alguns deram certo. Outros não, como deve ser. Mas e agora? O que eu faço quando não tem mais plano nenhum? Hm. Próxima esquerda, quem sabe.

Será que dá pra perceber? Será que notam que eu não faço idéia de onde eu estou e pra onde eu devo ir? Será que se eu continuar seguindo em frente vão achar que eu sei exatamente para onde eu estou indo? Será que alguém se importa?

Me ocupei completamente em tentar me equilibrar no degrauzinho da calçada esburacada ao lado de uma curva perigosa. A curva parecia não acabar. Tropecei duas vezes. Uma quase me jogou no meio da rua. A seguinte foi tão atrapalhada que quase me fez rir. Mas olha pro chão. Concentra. Você não quer morrer atropelada. Continua. Não cai. Olhos fixos no chão. Mãos distantes do corpo. Um passo depois do outro. Escapa um pouquinho o olhar pra ver onde a rua leva e
“Olha, talvez eu saiba onde essa rua dá” Não que eu quisesse seguir esse caminho.

Chegando mais perto de casa, menos perdida, menos nervosa, conseguindo pensar entre os soluços me aparece uma mulher.
“Moça, você é daqui?”
Ela parece não se importar com  o meu rosto vermelho e minhas lágrimas. Ela está com tanto medo quando eu.
“Sim”
“Eu estou perdida, você pode me ajudar?”
A rua que ela procurava estava no sentido oposto. A levei até onde precisava. Ela agradeceu com um sorisso que não consegui retribuir, mas juro que tentei.
É que, talvez, se eu perguntasse como a gente faz pra escolher quando e pra quem pedir ajuda no caminho ela não soubesse responder e acabasse sem sorrir assim.
Espero que  do meio sorriso vermelho molhado inchado que dei ela tenha  escutado o meu “obrigada”.

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