meia noite e meia memória

31maio12

O rádio-relógio ao lado da cama exibia seus números em um vermelho pouco brilhante. “00:00”. Impossível que tivesse algum compromisso para aquela hora, podia relaxar. A sensação de atraso certamente era resultado de uma noite agitada de sono e, provavelmente, alguma ansiedade. Mas o susto inexplicável que a acordou foi suficiente para levar embora o sono. Ficou olhando o relógio até que marcasse 00:05, os olhos já estavam acostumados com a escuridão que reinava no quarto, de forma que ela pode começar a conhecer o lugar. Era a primeira vez que via aquilo tudo. “quarto de hotel barato, certeza”

Maria Helena era um mulher comum na aparência mas de gostos e hábitos muito incomuns pra sua família tradicional de interior. Aos 22, depois de trabalhar duro pra juntar um dinheiro e ter alguma segurança, saiu para “viver por aí” como diria sua ressentida irmã. Maria Helena assinava seus livros, sempre muito bem recebidos pela crítica e pelo público, como Mahe, e se apresentava como Helena por onde ia. E ia a muitos lugares. Conseguiu umas férias permanentes depois do segundo livro. Não tinha uma residência fixa, de modo que mudava para outra cidade quando os terríveis dias de criação se tornavam ainda mais terríveis, ou quando já tinha conhecido todos os bares da região. Passava o dia inteiro trancada no quarto de hotel, à noite procurava um bar, e às vezes acordava em outro quarto de hotel, ainda acompanhada ou não. Assim, não tinha muito o que estranhar quando acordou, novamente, em um lugar completamente novo.
Uma cama de solteiro, um rádio-relógio no criado mudo, uma garrafa de água, um copo e uma escultura horrorosa em cima do aparadouro e só. Olhou fixamente para a escultura, “como podia alguém ter tanto mau gosto?”.

Lembrou de quando ainda resolveu fazer aulas de pintura para distrair e tentar quebrar o padrão quarto-bar. Sua habilidade com o desenho e com as cores eram tão boas quanto as da artesã que mexeu naquela argila e transformou em “escultura”. Será que alguém teria achado aquele quadro dela bonito? Secretamente ela esperava que tivesse alguma genialidade incompreendida naqueles rabiscos que deixou de lembrança para o professor. Um homem de quarenta anos, grisalho e extremamente charmoso. Se não fosse tão parecido com seu pai, Helena certamente teria o levado para um desses quartos baratos de hotel. Mas não queria se deitar com o homem que julgava ser o responsável pela sua adolescencia infeliz, embora soubesse que adolescências infelizes não costumam ter responsáveis. E, sendo bem sincera, sabia que não tinha muito do que reclamar da época que viveu com os pais. Todo pai reprova a idéia da filha fazer uma mala, entrar no carro do pai com ela e nunca mais voltar. A vida não era ruim lá, ela só tinha certeza de que seria melhor em qualquer outro lugar. Tentou se lembrar da onde tinha tirado essa certeza e como não conseguiu se ocupou resgatando da memória cada pedacinho bom que vivera até ali.

E como tinha história.

Entre uma vez que se perdeu a caminho do hotel e foi assaltada, e a vez que quebrou o braço dançando algo muito parecido com um ataque de epilepsia no meio do bar, teve a vez que descobriu sua melhor amiga de infância trabalhando como designer numa cidade pequena na argentina. Nunca perderam contato depois do reencontro memorável que envolvia serem cantadas pelo mesmo homem. Lembrava com carinho dos namorinhos que duraram muito mais que uma noite e terminaram antes que ela entendesse o amor. Contou todas as cidades que foi, e as que realmente conheceu. Pensou nas línguas novas que teve que fingir que sabia. Nas bebidas diferentes que tomou. Nas pessoas comuns que conheceu e que, grande parte das vezes, ajudavam a montar suas histórias. Revirou a memória do avesso até ter certeza de que tudo aquilo não só valera a pena, como era exatamente quem ela sempre sonhou em ser. E de repente teve saudades.

Teve uma saudade tão forte que quase a pôs de pé. Queria registrar tudo aquilo que estava fresco na memória. Queria poder filmar seus pensamentos para que eles não se perdessem. Sentiu o peito apertar tanto até entender que não seria possível.

Cobriu os olhos com as mãos e as sentiu. Dizem que as mãos não escondem a idade de uma mulher. Suas mãos escancaravam todos os anos que ela viveu. Ao fundo podia ver a escultura de argila. Tão feia, tão feia, fruto de uma péssima artesã. Tão péssima quanto só ela poderia ser.

Dormiu vencida pelo cansaço de lutar com o conhecimento de que não lembraria de mais nada quando estivesse realmente acordada.

O tema foi sugerido pela Nana (que ainda não publicou o dela), umas três semanas DEPOIS do prazo proposto eu consegui começar algo, e o Kajiya colocou A Loja de Memórias de Vovó Anastácia no comecinho do mês.

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