shh! não faça barulho na biblioteca.

20dez12

Como não era grande, a biblioteca da escola era uma bagunça. Não seria se os títulos fossem poucos, mas não eram. Disseram pra menina que todo aquele mundaréu de títulos ocupavam dois andares da biblioteca pessoal do fazendeiro mais rico da cidade. “antes de morrer ele mandou tudo pra cá, meio que às pressas, e não tinha outro lugar pra pôr… colocaram tudo nessa salinha aí”. Não que a menina ligasse, ela gostava assim. Às vezes diziam “quem sabe o próximo prefeito usa aquele terreno do lado da sorveteria atrás do posto de gasolina perto do semáforo… sabe? quem sabe levem os livros pra lá” e ela torcia o nariz. A biblioteca da escola era bonita assim, com os livros todos jogadinhos mas ajeitados e com a bibliotecaria séria que envelheceu rápido demais. Ela gostava do cheirinho dos livros, dos corredores estreitos e da mistureba que era. E da história de amor.

A bibliotecária, uma senhora de 27 anos, magrela e desajeitada, não sabia ler. Mas sabia onde estavam todos os livros. Talvez ela tenha decorado, eu não sei. Só sei que sabia onde estavam todos e nunca deixou aquela bagunça ser organizada. Funcionava muito bem, pra que mudar?

Na estante de frente para a porta estavam arrumados os livros sobre direito, biologia, história e as fábulas. A segunda estante era um pouco mais eclética: física, filosofia, culinária, gibis, monteiro lobato, literatura estrangeira, crônicas, os livros de vestibular, religião, geografia e anatomia. A terceira, preferida da menina, era a menos variada e mais colorida. Estavam lá os livros para criança, para crianças mais jovens, para jovens, e todos aqueles livros que, por falta de categoria melhor são infantis, porém todo adulto precisaria ler. A quarta estante seguia o padrão das duas primeiras: livros técnicos, literatura e algumas fitas k7 também.

Foi entre a segunda e a terceira estante que a menina viu, pela primeira vez, um olhar apaixonado cruzar com o dela. E fazer cara feia.

O livrinho fino de páginas coloridas tinha o olhar derretido, profundamente apaixonado, quase sofrido. Mas foi a menina passar pela frente que o olhar mudou. Incomodado, envergonhado, quase bravo.

– Me desculpa, mas o que foi que eu fiz?

O livrinho se encolheu na estante, estava um pouco mais vermelho que de costume, e não respondeu. A menina ficou furiosa, pegou um livrinho qualquer e saiu.

E no dia seguinte, correndo pra prateleira, encontrou o olhar confuso do livrinho fino. Notou que era o mais fininho da estante, mas teve medo de incomodar. Trocou seu livro e mudou de corredor, pra espiar.

Ali, da parte de trás da segunda estante, ela via direitinho o ar sorridente com que o livrinho olhava pra alguma coisa do outro lado. Livrinho olhava pra estante onde ela se escondia, mas não percebia que estava sendo espiado, olhava outra coisa…

A menina ficou intrigada porque aquele livrinho olhava tão intensamente pra prateleira quee decidiu investigar. No dia seguinte passou no corredor dos infantis, pegou outro livro e espiou a estante da frente, “só coisa chata”. Tirou um livro grande, aleatoriamente, e foi se esconder. O olhar meloso do livrinho era o mesmo, tinha errado. Devolveu o livro pra bibliotecária e foi ler o seu. Tentaria outro depois. E tentou. Outro. E outro. E outro. E outro…

Um dia a menina se cansou e pegou o livrinho. Ele não queria responder, mas ela descobriria mesmo assim. Levou pra casa e leu. Era um daqueles livrinhos gostosos, fáceis de ler, poucas páginas, letras grandes, umas ilustrações bonitas… Acho que era um daqueles livros infantis que todo adulto precisaria ler. Mas posso estar errada.

Depois de meses espiando livrinho por trás da prateleira, depois de lê-lo tantas vezes tentando descobrir o motivo daquele amor, a menina estava decepcionada. Foi devolver o livro a bibliotecária com o olhinho triste, cabeça baixa, olhos fixos nas mãos. Ao colocar o livro na mesa percebeu que livrinho estava corado. Ao seu lado tinha um livrão cinza escuro que acabara de ser devolvido pelo moço alto que estava já na porta, de saída.

Aí a menina descobriu.

O livrinho colorido e fácil de ler estava olhando pra ele, o grandão. E nunca antes o livrinho pareceu tão feliz. livrão, um livro maior que a bíblia, escrito em russo arcaico e com um cadeadinho pra abrir. A menina não entendia aquele encanto todo por uma capa cinza com a cara sisuda. Mas enquanto a bibliotecária passeava pelas páginas, pra checar se estava tudo bem, as folhas delicadas e bonitas apareceram. Tinha bonitas figuras e letras. Ao ter a capa fechada o livro cinza deixou escapar um olhar bonito e melancólico de quem vê seu amado de perto e já vai se despedir. A menina percebeu.

Pediu pra ficar mais um dia com o livrinho e foi passear pelas estantes. Logo depois de ter sido posto em seu lugar, o livrão foi pego. Furtivamente colocado na bolsa.

Menina saiu com a bolsa pesada cheia de amor e nunca mais voltou à biblioteca da escola. Tudo bem, ela gostava assim.

[tá sem revisão e continuará assim. lide com isso]

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One Response to “shh! não faça barulho na biblioteca.”

  1. Uma metalinguagem boazinha de ler :)


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