E aqueles olhos que não dizem nada pararam de procurar um canto qualquer pra se apoiar e resolveram enxergar o problema. Não que soubessem qual era o problema. Mas sabiam que ele estava ali, na frente, parado, esperando.

Ela pensou em tudo que podia ser pior que aquilo. Sempre dá pra ser pior. Podia ser morte de alguém. Podia ser solidão. Podia ser o holocausto. Mas ali, aquela hora, o pior era não saber. Olhou fundo nos olhos do outro lado e se perguntou o que passava por trás deles. Ela sabia o que deveria passar. Ela sabia o que devia esperar. Mas não sentia. Devia ser outra coisa.

Será que ainda tem amor? Pode não ser pior que o holocausto, mas o fim do amor era pior que tudo que ela podia pensar. Podia até ter outra pessoa na história. Podia ser que a balança estivesse começando a pesar pro lado ruim. Podia ser qualquer coisa. Mas não podia ser o fim do amor.

Olhou fundo. Tentou entender tudo que se passava ali, entre aqueles olhares profundos de quem quer entender e não sabe o que. De quem tem medo de saber o que acontece.

Respirou fundo. Enxugou a água do rosto. Olhou mais uma vez pro espelho e saiu.

foi o último gente, juro. agora só escrevo de coisa feliz.
(e editando antes, de preferência)

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O rádio-relógio ao lado da cama exibia seus números em um vermelho pouco brilhante. “00:00”. Impossível que tivesse algum compromisso para aquela hora, podia relaxar. A sensação de atraso certamente era resultado de uma noite agitada de sono e, provavelmente, alguma ansiedade. Mas o susto inexplicável que a acordou foi suficiente para levar embora o sono. Ficou olhando o relógio até que marcasse 00:05, os olhos já estavam acostumados com a escuridão que reinava no quarto, de forma que ela pode começar a conhecer o lugar. Era a primeira vez que via aquilo tudo. “quarto de hotel barato, certeza”

Maria Helena era um mulher comum na aparência mas de gostos e hábitos muito incomuns pra sua família tradicional de interior. Aos 22, depois de trabalhar duro pra juntar um dinheiro e ter alguma segurança, saiu para “viver por aí” como diria sua ressentida irmã. Maria Helena assinava seus livros, sempre muito bem recebidos pela crítica e pelo público, como Mahe, e se apresentava como Helena por onde ia. E ia a muitos lugares. Conseguiu umas férias permanentes depois do segundo livro. Não tinha uma residência fixa, de modo que mudava para outra cidade quando os terríveis dias de criação se tornavam ainda mais terríveis, ou quando já tinha conhecido todos os bares da região. Passava o dia inteiro trancada no quarto de hotel, à noite procurava um bar, e às vezes acordava em outro quarto de hotel, ainda acompanhada ou não. Assim, não tinha muito o que estranhar quando acordou, novamente, em um lugar completamente novo.
Uma cama de solteiro, um rádio-relógio no criado mudo, uma garrafa de água, um copo e uma escultura horrorosa em cima do aparadouro e só. Olhou fixamente para a escultura, “como podia alguém ter tanto mau gosto?”.

Lembrou de quando ainda resolveu fazer aulas de pintura para distrair e tentar quebrar o padrão quarto-bar. Sua habilidade com o desenho e com as cores eram tão boas quanto as da artesã que mexeu naquela argila e transformou em “escultura”. Será que alguém teria achado aquele quadro dela bonito? Secretamente ela esperava que tivesse alguma genialidade incompreendida naqueles rabiscos que deixou de lembrança para o professor. Um homem de quarenta anos, grisalho e extremamente charmoso. Se não fosse tão parecido com seu pai, Helena certamente teria o levado para um desses quartos baratos de hotel. Mas não queria se deitar com o homem que julgava ser o responsável pela sua adolescencia infeliz, embora soubesse que adolescências infelizes não costumam ter responsáveis. E, sendo bem sincera, sabia que não tinha muito do que reclamar da época que viveu com os pais. Todo pai reprova a idéia da filha fazer uma mala, entrar no carro do pai com ela e nunca mais voltar. A vida não era ruim lá, ela só tinha certeza de que seria melhor em qualquer outro lugar. Tentou se lembrar da onde tinha tirado essa certeza e como não conseguiu se ocupou resgatando da memória cada pedacinho bom que vivera até ali.

E como tinha história.

Entre uma vez que se perdeu a caminho do hotel e foi assaltada, e a vez que quebrou o braço dançando algo muito parecido com um ataque de epilepsia no meio do bar, teve a vez que descobriu sua melhor amiga de infância trabalhando como designer numa cidade pequena na argentina. Nunca perderam contato depois do reencontro memorável que envolvia serem cantadas pelo mesmo homem. Lembrava com carinho dos namorinhos que duraram muito mais que uma noite e terminaram antes que ela entendesse o amor. Contou todas as cidades que foi, e as que realmente conheceu. Pensou nas línguas novas que teve que fingir que sabia. Nas bebidas diferentes que tomou. Nas pessoas comuns que conheceu e que, grande parte das vezes, ajudavam a montar suas histórias. Revirou a memória do avesso até ter certeza de que tudo aquilo não só valera a pena, como era exatamente quem ela sempre sonhou em ser. E de repente teve saudades.

Teve uma saudade tão forte que quase a pôs de pé. Queria registrar tudo aquilo que estava fresco na memória. Queria poder filmar seus pensamentos para que eles não se perdessem. Sentiu o peito apertar tanto até entender que não seria possível.

Cobriu os olhos com as mãos e as sentiu. Dizem que as mãos não escondem a idade de uma mulher. Suas mãos escancaravam todos os anos que ela viveu. Ao fundo podia ver a escultura de argila. Tão feia, tão feia, fruto de uma péssima artesã. Tão péssima quanto só ela poderia ser.

Dormiu vencida pelo cansaço de lutar com o conhecimento de que não lembraria de mais nada quando estivesse realmente acordada.

O tema foi sugerido pela Nana (que ainda não publicou o dela), umas três semanas DEPOIS do prazo proposto eu consegui começar algo, e o Kajiya colocou A Loja de Memórias de Vovó Anastácia no comecinho do mês.


Talvez eu seja uma das pessoas mais sedentárias que eu já conheci. Depois de uma infância cheia de aulas de dança, uma adolescência com caminhadas diárias pra escola, eu me acomodei numa vida em que ir até o ponto do fretado e  fazer aquele percurso cptm-USP era o máximo de exercícios feitos diariamente. Somando isso à displicência postural e pré-disposição genética, acabei num consultório de ortopedista com algumas radiografias e um “vai fazer exercícios, mulher” do médico.

Fui parar em uma academia. E minha matrícula durou apenas 15 dias. O que não significa que eu tenha ido 15 dias naquele lugar.

Minha primeira aparição na casa de torturas foi para uma aula de pilates. O ortopedista tinha indicado pilates, achei bacana ir. Mas pilates é coisa séria (como diria a mãe do namorado [1]: “muito cuidado, faça com um fisioterapeuta”) e aquela aula com uma professora de educação física acabou em dor, dor e mais dor. Não conseguia fazer metade das coisas que mandavam sem soltar gritinhos de dor. Aí a mulher vinha me ajudar e puxava a minha perna daquele jeito super delicado que fazia eu ter vontade de pular no pescoço e arrancar a cabeça dela.

Minha segunda aparição foi pra musculação. Eu ia conhecer a série que o moço não confiável [2] achou que seria a melhor pra mim. Na avaliação deixei duas coisas muito claras: detesto exercícios e morro de dor nas costas (talvez eu devia ter lembrado que quando fazem com que eu sinta dor eu fico violenta). Minha série era bacana, até chegar aquele negócio horroroso de ter que empurrar um placa ligada nuns pesos com a perna. EU NÃO CONSEGUIA. E não adiantou eu dizer que não era por causa dos pesos, era por causa da dor. O moço deixou o mais leve possível e me mandou fazer que era normal doer. Fiz com uma perna só. Saí do aparelho no maior mau-humor. Até  a hora da esteira olhando pra TV pra ajudar o ex casinho que queria fingir que não me via, a série tinha se tornado uma chatice sem fim, e dolorida.

Minha terceira aparição foi pra cancelar a matrícula. [3]

E todo esse meu falatório serviu para:
1) me deixar tagarelar
2) contar que música de academia é uma desgraça. uma DESGRAÇA. Em algum momento desses dias eu tive contato com um sertanejo seguido de uma música que, pelo que lembro, era o máximo por estar na trilha sonora de O Beijo do Vampiro.
Acredito que apenas dois tipos de pessoas podem frequentar esse lugar e suas aulas sem grandes danos: pessoas surdas e pessoas de mau gosto.

Conversando sobre isso, no plus, a Mahayana deu a idéia de uma mixtape para academia.
Minha primeira tentativa de melhorar o som num ambiente desses não teve sucesso (pessoas de academia realmente gostam de Black Eyed Peas). Espero que a segunda ajude alguém de bom gosto a ter uma experiência menos triste.

A lista (é só uma lista por enquanto) segue com links pro youtube pq tá tarde e eu falei demais. Depois eu organizo tudo bonitinho e coloco o link aqui pra ser uma mixtape decente. :)

Beck – Sexx Laws


Na verdade, todo o Midnite Vultures combina com uma academia, ou com uma corrida.

Arctic Monkeys – I bet that you look good on the dancefloor


Tenho vontade de sair rodopiando dançando pulando sempre que escuto.

The Bravery – An Honest Mistake


Durante muito tempo essa foi a minha música de início de faxina.

Julian Casablancas – 11th dimension


Não sei se tem cara de academia de verdade. Mas imagina, no meio de um filme/novela/seriado, aquela cena com um monte de gente linda malhando sorridente e feliz. Quando eu imagino isso essa é a música que toca na minha cabeça.

Franz Ferdinand – No you girls


Já deu pra perceber que meu único critério é: “me dá vontade de dançar”?

Ok go – Here it goes again


me deixem ser previsível e colocar vídeo com esteiras

Mystery Jets – Young Love


é menos dançante, é menos animada, mas eu gosto tanto que não ia deixar de fora.

Backstreet Boys – Get Down


vejo perfeitamente isso sendo tocado em uma academia sem nenhum problema.

Super Furry Animals – God! Show me Magic


eu nunca sei onde fica a exclamação nessa música

Ben Lee – What’s so bad (about feeling good?)


acho simpática demais.

Delays – Valentine


eu gosto mesmo é do vocal da banda.

N Sync – Bye Bye Bye


apenas atendendo um pedido, eu não posso gostar deles já que gosto de BSB.

Pete Yorn & Scarlett Johanson – Relator


Scarlett tem uma voz horrível, mas com Pete Yorn do lado até passa…

E nem sei quantas músicas tem aí nem quão longo tá isso, então tá bom.

agradecimentos especiais ao Mário, o artista responsável pelas capas.

[1] não consigo usar a palavra sogra simplesmente porque ela é muito feia.

[2] não confio quando o diâmetro do braço é maior que o dobro da cabeça

[3] mudei de médico e ele mandou parar com a academia até ter resultado de outros exames e decidir o que seria meu tratamento.


bem igual

11jan12

“não posso mais, não dá mais pra levar”
Então chegou a hora que ela cansou de ter medo de mudar, foi lá e fez.
Ele que dizia não aguentar mais. Não aguentava mais os mesmos lugares, as mesmas pessoas, o mesmo abraço, as mesmas piadas, os mesmos olhares, as mesmas roupas. Não é que ele não a suportasse mais, nem que não gostasse. Mas era igual demais. Enjoou, perdeu o encanto. Precisava mudar.
Só que era bom. Os abraços estavam garantidos, os olhares estariam ali, a companhia na cama depois do dia longo era certa, os beijos estavam a sua disposição.
Mudar porderia significar a falta dos abraços, roubar os beijos e talvez a cama vazia. Mudar poderia significar um recomeço. Recomeçar é difícil. Dá medo.

Mas aí ela cansou. Ela não poderia ser diferente. Continuaria tudo sempre igual, ou terminaria e ela acharia outro alguém pra ser igual.
E ela achou.

Talvez ele estivesse errado, e ser igual não é culpa dela. Não era ela que era igual sempre, mas ele que se colocasse nas mesmas situações pra testar a previsibilidade dela, e se provar certo. Percebia agora que ela não mudaria enquanto ele fizesse as mesmas coisas, fosse apenas aos mesmos lugares, conversasse sobre os mesmos assuntos, lesse sempre os mesmos livros e exigisse as mesmas coisas. Mas, principalmente, ele acreditava tanto que o problema fosse dela que não enxergaria se ela mudasse. Colocaria os mesmos defeitos. Talvez quem precisasse mudar fosse ele.

Então ele volta atrás. E promete que será bem melhor, dessa vez, será bem melhor. Ninguém muda em poucos meses, ninguém muda em poucas semanas. Ele não mudaria, mas não cobraria mais que ela mudasse. Era bom assim. E depende dele, se ele continuar entendendo isso, será mesmo bem melhor.

Ela? Ela recusa. Não existe retorno se existia vontade do fim. Ela sempre soube disso.
Ou talvez ela tivesse, finalmente, mudado.

 

 
(moptop + análise d’Os Normais (oi fer) + moptop + conversa de bar no porão do shopping)


02jan12

Todo fim de ano eu lembro que durante um ano todo eu não sei como eu me sinto quanto a finais de ano. E então eu tenho que fazer um esforço pra descobrir se eu gosto disso ou não. No fim, acho, eu acabo gostando sempre.
Tem essa coisa de ter esperança em acertar nas coisas que, na verdade, aparece em mim depois de qualquer final de semana prolongado com maratona de séries e comida demais.
E eu consegui uma boa semana de férias entre natal e ano novo dessa vez. Talvez seja por isso que eu to indo dormir com uma esperança infantil de que amanhã vai ser legal. Que não importa o quão chata minha primeira semana promete ser, eu posso acertar as coisas na segunda semana, ou depois.
Mas o importante mesmo, o que eu mais gosto nessa coisa de final de ano, ano novo, e até carnaval (por que não?), é essa esperança idiota de que, quem sabe, eu faça por merecer coisas legais esse ano. O importante é essa sensação bestinha que me faz acreditar que estarei de bom humor antes das 10h numa segunda feira. E que me faz acreditar que eu vou conseguir finalmente emagrecer. O legal de ano novo e ter um ano novinho pra começar uma contagem de erros. E é provável que apostar que essa contagem será bem menor que a de 2011 seja o erro número 1 de 2012, mas e daí né?


Vinte anos na cara e oitenta na coluna. Essa tem sido a minha vida esse ano.

Começou levinho, uma dor que aparecia forte uma ou duas vezes por mês e sumia magicamente. Comecei a preocupar quando deixei aniversário de amiga cedo demais, não compareci no combinado depois com outra amiga (um asteroid, umas bebidinhas e umas dancinhas) e fiquei a noite toda na cama chorando de dor. Aí passou e só apareceu de novo no outro mês.

Aí chegou o segundo semestre, o desemprego, a física experimental, as dores. As dores aumentaram significativamente com o meu emocional balançando mais. Com as tpms mais severas. Com as discussões quase constantes em casa. Com as vontades de desistir de tudo porque mimimi minhas notas de lab são muito baixas mimimi nunca vou terminar a faculdade mimimi EU PRECISO DE GRANA PORRA. Reduzi as tpms com comprimidinhos mágicos e uma tentativa absurda de melhorar a alimentação. To tentando me incomodar mais e “viver mais o momento” (o que, pra mim, só significa que eu tenho estudado pra caralho e ainda me ferrado absurdamente). Mas foi tarde demais.

Em algum momento o “probleminha das costas” virou um problemão, ganhou radiografia, tomografia, nome e umas receitas novas de remédio. Nenhum funciona, a não ser pra dar sono. Eu reclamo, reclamo, mas eu tenho total e completa consciência de que nem é um problema tão grave (você já viu alguém parar de andar por causa de hérnia de disco?) e, bom, é culpa minha (eu cuido tão bem da minha postura e faço tantos exercícios quanto meu peixinho hoje em dia [1]).

O negócio é que dói mais quando a vida fica mais dura.

É como o velhinho com reumatismo que fala “ó, o tempo vai mudar” (e costuma mudar mesmo) porque sentiu uma dorzinha aqui ou ali. Só que comigo não tem relação nenhuma com pressão atmosférica, temperatura, umidade relativa e essa coisa toda. Tem só relação com a pressão que tá pra cima de mim (que, muitas vezes, só eu que coloco), com a bagunça que fica a vida, com as crises em relacionamentos, com as contas pra pagar, com o relatório pra entregar…

É esticar o braço pra mexer no ociloscópio, já brava porque demorou muito pra eu entender “que é pra fazer mesmo?” e porque o tempo tá acabando e não dá pra reservar a bancada pra próxima hora, que dói. E eu grito de dor, e tudo volta ao normal. É tentar balançar a perna freneticamente embaixo da mesa pra passar o nervosismo da discussão que dói. E eu grito de dor, pareço retardada, acabo com a discussão e morro de vergonha. É estar no final de semestre que dói. O TEMPO TODO. É ter coisa chata rolando e cada vez que me perguntar “que eu faço pra resolver agora?” sentir a perna toda esquisita e a dor lombar dando um oi tímido. Só pra lembrar que tá ali.

Então eu acordo com dor, vou tortinha pro ponto, não durmo no fretado por falta de posição, e porque tá doendo tanto hoje?  ontem eu nem fiquei jogada toda torta no sofá durante horas. ontem tava doendo, e doeu, muito, mas e agora que que eu fiz? Meia hora depois e eu já sei porque tá doendo.

É o tempo virando e meu reumatismo de velhinho avisando.

 

[1] meu peixinho morreu, duas semanas depois de virar meu.


Então o Japa resolveu plantar a dúvida na minha cabeça:

“Se você pudesse perguntar uma coisa pra você mesma de 50 anos, o que você perguntaria?”

Eu demorei muito mais do que deveria pra decidir o que eu perguntar pra mim. Dois minutos, talvez.
Podia ser “e aí, marina, vc conseguiu sair da física?”  e acabar de vez com meu mimimi nunca vou sair daqui. Podia perguntar se eu vou ter um emprego bacana. Podia perguntar se eu viajo. Ou se meus planos dão certo. O que acontece com meus amigos? Eu vou mantê-los na velhice? Vou conhecer mais gente legal que vai me acompanhar na vida também? Podia perguntar se eu envelheço sozinha, se eu consigo manter um relacionamento sério com alguém por bastante tempo, se o moço que tem me feito feliz vai me fazer sofrer. Eu podia perguntar qual meu maior arrependimento aos 50, e tentar evitar. Eu podia perguntar se vou ser feliz. Se vou ter alguma doença grave que possa ser prevenida aos 20. Se eu posso fazer algum investimento inteligente agora e salvar meu futuro. Ou se eu posso fazer alguma coisa agora e salvar o futuro de todo mundo.
Podia perguntar pra Marina mais vivida, mais experiente, mais velha, o que ela acha que eu deveria fazer agora. Se compro uma bicicleta, se começo a correr, se escrevo um livro, se mudo de cidade, se corto o cabelo, se emagreço, se me formo, se começo, se termino, se guardo, se deixo passar se dou um passo pra direita ou pra esquerda.

Mas eu acho que nada disso seria suficiente. E talvez nem fosse saudável. Vai que eu viro pra direita, porque eu-velha acho que talvez a direita teria sido melhor pra mim, e o caminho é pior que o que eu supostamente segui?  E se eu pergunto “vai ficar tudo bem?” e ouço um não?

Se eu encontrasse a Marina de 50 anos eu daria aquela olhadinha marota pro céu e perguntaria “será que chove?”